Exposição
Biografias
Sueli e Isael Maxakali nasceram em Água Boa (Santa Helena de Minas, MG), onde cresceram cantando, comendo e dançando com os yãmĩyxop. Hoje, são professores e duas importantes lideranças da Aldeia Verde (Ladainha, MG), onde vivem e trabalham. Juntos, realizaram nos últimos anos uma série de filmes que retratam o cotidiano ritual de sua aldeia.
Mais conhecidos como Maxakali, os Tikmũ’ũn são cerca de 1.500 pessoas vivendo hoje em três terras indígenas no Vale do Mucuri (MG). São falantes da língua Maxakali (tronco linguístico Macro-Jê) e donos de um vastíssimo repertório de cantos e rituais conhecidos como yãmĩyxop, “povos-espíritos” que de tempos em tempos vêm de suas terras outras no céu, nas águas e nas matas para passarem temporadas entre eles.
Vocês aqui têm nomes para as estrelas, nós também, porém as chamamos de nomes diferentes. Tem estrela que se chama kuptap yĩmãg, koyemok xu’uk, xokpatakumĩy, mãyõn nãg pata. Aquelas duas estrelas que vivem pertinho uma da outra, são duas moças bonitas, que dois rapazes namoraram. Foi assim: antigamente, os dois estavam deitados, olhando pro céu, até que um deles apontou para as estrelas e falou: “Nossa! Como são bonitas!”. As estrelas ouviram e desceram até eles. Um deles teve medo e fugiu. O outro se casou com a estrela e, juntos, tiveram dois filhos. Quando a mulher-estrela estava grávida do mais novo, teve desejo de comer coquinhos. O marido subiu no coqueiro para apanhá-los, mas a esposa bateu várias vezes no tronco, que cresceu. Cresceu até furar um buraco no céu e atravessá-lo. O homem e a mulher-estrela então foram viver no céu. Mas depois de um tempo, o homem sentiu saudades dos seus parentes e pediu que a sua esposa fiasse uma linha bem comprida de embaúba para ele descer. Ele desceu e quando amarrou a linha no chão, ela se transformou num cipó, um cipó que existe até hoje.
Lá embaixo, o homem falou para os seus parentes virem com ele pro céu, pois lá tinham muitos bichos para eles caçarem. Os homens foram e carregaram mandioca numas bolsas de embaúba que uma mulher deu para eles levarem. Mas quando eles chegaram lá em cima, comeram tudo e jogaram as bolsas fora. A dona das bolsas viu e ficou com raiva. Ficou com tanta raiva que cortou o cipó por onde eles subiram. Os que estavam lá em cima, perceberam quando estavam voltando que havia alguma coisa errada, não tinham mais lugar para descer: alguém tinha cortado o cipó. Aí um dos pajés falou pra cada um virar um bicho e pular. Um deles virou porco do mato e pulou, mas bateu com o nariz no chão. Por isso o nariz do porco é assim, chatinho. Outro virou quati e pulou, mas a ponta do seu nariz bateu no chão e dobrou. Por isso o quati tem o nariz arrebitado. Outro virou anta e pulou, mas bateu com a cara no chão. Por isso o nariz da anta é desse jeito, engraçado. E foi assim que, um por um, eles se transformaram em bichos. Por isso dizemos: yãy hã mĩy, yãy hã mĩy, yãy hã mĩy.
Se eu fizer um desenho, eu vou formar, transformar, eu vou formar o desenho do bicho, aí, fiz transformou, entenderam? Se eu plantar semente vai se transformar em pé de fruta, vai sair fruta. Transforma em diferente. Todo yãmiy imita para transformar, imita bicho, imita peixe, imita quati, imita porco do mato e vai transformando. No nosso ritual o yãmiy imita muitos bichos. Porque nós, os Tikmũ’ũn, nos transformamos em bicho e em outras coisas também. Por isso dizemos yãy hã mĩy, transformar. Antigamente, todo pajé se transformava em bicho. E bicho se transformava em outro bicho. Vai transformando. E toda árvore também vai se transformando. As coisas transformam muito né? E hoje, isso ainda continua. Eu me transformei em coordenador da escola. Yãy hã mĩy. Vereador. Yãy hã mĩy. Transformar. É assim.
Sueli e Isael Maxakali