Apresentação
Vocês aqui têm nomes para as estrelas, nós também, porém as chamamos de nomes diferentes. Tem estrela que se chama kuptap yĩmãg, koyemok xu’uk, xokpatakumĩy, mãyõn nãg pata. Aquelas duas estrelas que vivem pertinho uma da outra, são duas moças bonitas, que dois rapazes namoraram. Foi assim: antigamente, os dois estavam deitados, olhando pro céu, até que um deles apontou para as estrelas e falou: “Nossa! Como são bonitas!”. As estrelas ouviram e desceram até eles. Um deles teve medo e fugiu. O outro se casou com a estrela e, juntos, tiveram dois filhos. Quando a mulher-estrela estava grávida do mais novo, teve desejo de comer coquinhos. O marido subiu no coqueiro para apanhá-los, mas a esposa bateu várias vezes no tronco, que cresceu. Cresceu até furar um buraco no céu e atravessá-lo. O homem e a mulher-estrela então foram viver no céu. Mas depois de um tempo, o marido sentiu saudades dos seus parentes e quis voltar. Àquela altura, as folhas já tinham coberto o buraco por onde eles tinham passado. Mas o homem já era encantado e lançou suas flechas pro ar. Uma delas atingiu o buraco e atravessou o chão do céu. “Ah! Então foi por aqui que nós viemos!”, o homem pensou. Chegando em casa, ele pediu que a sua esposa fiasse uma linha bem comprida de embaúba, igual a um novelo, para ele descer. Ele desceu e quando amarrou a linha no chão, ela se transformou num cipó, um cipó que existe até hoje.
Lá embaixo, o homem falou para os seus parentes virem com ele pro céu, pois lá tinham muitos bichos para eles caçarem. Antes dos homens subirem, uma mulher entregou para eles algumas bolsas de embaúba com mandioca, para que não passassem fome na viagem. Mas quando eles chegaram no céu, comeram toda a mandioca e jogaram as bolsas fora. A dona das bolsas viu e ficou com raiva. Ficou com tanta raiva que cortou o cipó por onde eles subiram. Os que estavam lá em cima, perceberam quando voltavam que havia alguma coisa errada, não tinham mais por onde passar: alguém tinha cortado o cipó. Um dos pajés então falou para cada um virar um bicho e pular. Um deles virou porco do mato e pulou, mas bateu com o nariz no chão. Por isso o nariz do porco é assim, chatinho. Outro virou quati e pulou, mas a ponta do seu nariz bateu no chão e dobrou. Por isso o quati tem o nariz arrebitado. Outro virou anta e pulou, mas bateu com a cara no chão. Por isso o nariz da anta é desse jeito, engraçado. E foi assim que, um por um, eles se transformaram em bichos. Por isso dizemos: yãy hã mĩy, yãy hã mĩy, yãy hã mĩy.
Se eu fizer um desenho, eu vou formar, transformar, eu vou formar o desenho do bicho, aí, fiz transformou, entenderam? Se eu plantar semente vai se transformar em pé de fruta, vai sair fruta. Transforma em diferente. Todo yãmĩy imita para transformar, imita bicho, imita peixe, imita quati, imita porco do mato e vai transformando. No nosso ritual o yãmĩy imita muitos bichos. Porque nós, os Tikmũ’ũn, nos transformamos em bicho e em outras coisas também. Por isso dizemos yãy hã mĩy, transformar. Antigamente, todo pajé se transformava em bicho. E bicho se transformava em outro bicho. Vai transformando…
Quando uma pessoa morre, ela vai para outro mundo, para outro lugar e se transforma, yãy hã mĩy. Quando elas vêm nos visitar, não vamos ver, mas à noite, se eu dormir, eu vou sonhar e vou ver o meu parente que morreu. Por que eu enxergo o meu parente? Ele veio, nos visitou. Quando um fazendeiro mata um indígena, onde ele matou, aquele pedaço de terra é dele, onde derramou o sangue. O seu espírito vai morar ali e toda noite vai cantar e o não-índio vai estranhar e pensar “tem alguma coisa ali”, chorando e cantando, mas é o nosso yãmĩy, que está tomando conta da terra onde o sangue foi derramado. Onde o corpo está. O cinema também traz o yãmĩy para perto da gente. Para nós, a imagem faz parte do nosso espírito, do nosso olhar. Porque espírito e imagem são coisas diferentes para os brancos, mas continuam sendo a mesma coisa para nós, Tikmũ’ũn. O espírito vem com as pessoas que já morreram. Mas se no meio de um filme tem uma pessoa que já morreu, a imagem passa a ser espírito também. O filme continua sendo espírito para nós.
Quando o yãmĩy vem dançar conosco, ele imita os bichos. Todo yãmĩy imita para transformar: imita bicho, imita peixe, imita quati, imita porco do mato e vai transformando. No nosso ritual, o yãmĩy imita muitos bichos. Vamos falar um pouquinho sobre o filme “Yãmĩy”. Fizemos esse filme para mostrar para as escolas indígenas e não indígenas o nosso ritual. Quando o yãmĩy vem para a aldeia, ele fica na barraca de ritual. As mulheres não podem entrar na barraca de ritual, nem os meninos que não foram iniciados. Só os homens e os meninos iniciados podem entrar. Cada família, cada casa, vai fazer comida para o seu yãmĩy. E à tardinha, quando ele começa a cantar, as mulheres o chamam para pegar comida, que ele leva para a barraca de ritual. Ele fica ali um, dois meses.
Quando ele canta, à tardinha, vai cantar em cada casa da aldeia. Tem que passar por todas as casas, não pode faltar nenhuma! E à noite ele começa a cantar dentro da barraca de ritual e fica cantando até amanhecer. Aí o pajé vai chamando do lado de fora, e vão saindo os yãmĩy mõg ka’ok (espíritos corredores), que imitam todas as caças. Yãmĩy vai imitar primeiro o tatu, que vai sair bem cedo. Depois imita a anta que vai sair, o veado que vai sair, a cotia que vai sair, a coruja que vai sair… Imitam tudo! Vão saindo, imitando caça e curando. E quando eles saem, as crianças que não podem entrar na barraca de ritual vão jogar flechas neles. Mas só as meninas e os pequenininhos que não foram iniciados. Os que podem entrar na barraca de ritual não jogam as flechas.
Ai à tardinha, quando termina tudo, os yãmĩy vão embora. Depois de seis meses já podemos chamar de novo, com cantos e com comida. No final, o pajé vai juntando toda a rapaziada e vai imitar também yãmĩy, de brincadeira. E as crianças vão jogar flechas nele, igual jogaram nos yãmĩy. Depois ele faz reunião com os meninos, ensinando a história, ensinando como faz a pintura de ritual, como vai caçar no mato, como vai pescar. Quando o caçador vai pro mato, se não encontrar nenhum bicho, ele tem que imitar o bicho também. Imitar quati, onça ou veado. Aí o bicho vem e você pode matar. Por isso o pajé imita os bichos no ritual as crianças imitam os caçadores com suas flechas de pano mãgtuk. Nós os Tikmũ’ũn fazemos várias flechas, pohox. Não fazemos uma flecha só não. Antigamente, os kotkuphi, mandioca-espírito, ensinaram os antigos a fazerem as flechas. Cada uma tem uma ponta diferente. Tem flechas mãgtuk, patxox pata, patyãm kup e koxak. Para matar cada bicho, tem flecha diferente. Tem flecha para matar passarinho, flecha para matar paca, flecha para matar onça, capivara e porco do mato também.
Antigamente, tinha muito yãmĩy quando não tinha fazendeiro, porque tinha muita mata fechada. Quando não estão na aldeia, os yãmĩy vivem dentro da floresta. Antigamente, quando acabava a caça e a pesca em volta da aldeia, os pajés faziam reunião e saíam de novo, seguindo a beira do rio, para fazer outra aldeia nova onde tem muita fruta e caça. E em cada lugar por onde eles passavam, saíam novos cantos. Aquilo o que o yãmĩy via, ele cantava. Mas hoje não temos como sair procurando nosso alimento, porque os fazendeiros cercaram tudo. É proibido a gente pescar, caçar, mas antigamente não. Antes a terra era livre para nós. Tudo aberto para nós. E hoje tem aldeia que não tem mata, e o yãmĩy tem que ficar lá no céu, ou no nosso cabelo. Acabou a mata, mas nosso yãmĩy fica aqui no cabelo, para viajar junto com a gente e nos proteger.
Como tem pouca mata hoje, os nossos yãmĩy têm que ir caçar longe, procurar fruta e capivara bem longe da aldeia. Os yãmĩy já não têm mais onde caçar, banhar ou o que comer. As matas e os rios acabaram. Já não surgem cantos como antigamente. Yãmĩy mõg ka’ok, por exemplo, gosta de morotó, que parece uma lagarta que fica dentro da taquara. Quando ele acha o morotó, ele volta, grita e avisa toda a comunidade que tem morotó pra comer. E no outro dia os homens da aldeia trazem o morotó, levam para a barraca de ritual e dividem depois com cada casa, com cada família. Porque os yãmĩy sustentam e alimentam as famílias. E as famílias alimentam eles também. Um cuida do outro, um divide com o outro. Quando a gente se alimenta, o yãmĩy alimenta junto, porque ele está dentro de nós. Yãmĩy é um espírito que é do nosso corpo, que temos que respeitar. Se eu ficar doente, o yãmĩy vai cantar para me curar, para me alegrar.
Hoje, a terra onde vivemos é pequenininha. Os brancos tomaram tudo. A terra, as águas, o céu, o sol e o vento hoje estão doentes. Por que estão doentes? Porque a mata acabou, os rios secaram e as nossas águas adoeceram. O corpo da terra está quente. Plantamos sementes e mudas, mas elas não crescem mais como antes. A terra está quente por dentro e por isso as sementes se queimam antes de brotar. Mesmo se molharmos, não crescem tão rápido como crescem com a água da chuva. A mata hoje está fraca. Não há mais árvores altas e fortes como as que viviam aqui antigamente. A chuva e os ventos estão com raiva e não querem mais cair ou soprarem por aqui. Por isso a terra está tão quente. Quando a água dos lagos evapora, se transforma em nuvens vermelhas, que também estão doentes e esquentam a terra. Chove forte, mas a chuva que cai hoje em dia adoece as nossas crianças e destrói as cidades dos brancos também. Antigamente, nossas crianças não adoeciam como hoje, porque havia muita mata e muita sombra. Mas hoje, quando chove ou venta, elas começam a tossir, a gripar e a queixar dor de garganta, dor de cabeça… Antigamente, não tinha nada disso. Mas os brancos chegaram e derrubaram toda a mata, poluíram os rios, construíram barragens e acabaram com os peixes. Nossos avós viviam até os cem anos. Mas nós não chegaremos nesta idade, porque hoje temos doenças que não conhecíamos e já não comemos mais como antigamente.
Ainda assim, nós sabemos curar a terra. Nós podemos trazer de volta a mata, as frutas e os bichos. Porque nós, os Tikmũ’ũn, somos filhos da terra, nós surgimos dela. Por que nós falamos que a terra é nossa mãe? Porque é de onde nós surgimos, é de onde surgiu a nossa história, porque o nosso corpo pertence à terra. Antigamente, um homem fez uma vagina no barreiro e transou com ela. E, do barreiro, surgiu a primeira mulher. Foi assim que nós, os Tikmũ’ũn, surgimos. Por isso a terra é nossa mãe. Os brancos têm poucos filhos hoje em dia, mas nós não. Nós temos muitos filhos e um dia a nossa terra não caberá mais tanta gente. Ou vamos todos virar brancos e morar em casas compridas de cimento como nas cidades? Nós morando em baixo, nossos filhos no andar de cima, nossos netos e os filhos dos nossos netos em cima deles? E como os yãmĩy (espíritos) vão fazer para buscar comida nestas casas? Vamos ter que descer de elevador para levar comida para eles? Ou amarrar um cipó bem comprido para que eles subam, como macacos, buscando comida? Não vai dar!
Antigamente, nós, os Tikmũ’ũn, tivemos que escolher: ou perdíamos a terra ou perdíamos nossa língua e os nossos cantos. Preferimos perder a terra do que perder os cantos. Porque se nós tivéssemos segurado a terra, já teríamos todos morrido, os fazendeiros já teriam matado todo mundo. Aí acaba nosso ritual, nossa língua, nossa história. Acabam os Tikmũ’ũn. Por isso preferimos deixar a terra para o fazendeiro, e levar conosco o canto e a língua, para podermos chamar os nossos yãmĩy. Mas a verdade é que nunca desistiram de acabar conosco. Os nossos antigos pajés eram fortes e resistiram, mas e hoje? Os antigos se esconderam nas matas, dentro das cavernas, onde moram os morcegos, para os fazendeiros não poderem matá-los. Mas hoje não temos para onde fugir! Os brancos derrubaram a mata e construíram cidades em cima das nossas antigas aldeias. Quando os nossos parentes saem da reserva e passam por essas cidades, são tratados como cachorros. Os brancos ligam pra Funai e mandam levar os nossos parentes de volta pra aldeia. Mas aldeia não é cadeia! Nós, os Tikmũ’ũn, precisamos andar para descansar. Antigamente, andávamos pela floresta. Mas como hoje não tem floresta, temos que andar pelas cidades.
Hoje estamos muito preocupados. Os nossos pajés estão tristes e às vezes falam em se matar. Por que eles estão tristes? Porque os missionários evangélicos também estão se aproximando das nossas aldeias e não nos dão mais sossego. Primeiro eles dizem que são nossos amigos e trazem bolachas para as nossas crianças. Mas eles não gostam dos nossos yãmĩy. Eles dizem que os nossos yãmĩy são ruins, que não são verdadeiros, que são “magia negra”. Alguns parentes não entendem, e querem seguir o caminho deles. No início eles vinham passar um dia na aldeia e iam embora. Mas agora construíram suas igrejas perto da nossa aldeia e estão vindo direto, direto. Eles vêm e entram de casa em casa, como o nosso yãmĩy quando vai buscar comida. E alguns dos nossos parentes estão se envolvendo com eles. Não percebem que eles estão nos cercando como jiboias. Vão nos cercando, nos apertando, até nos deixarem sem ar. Eles chegam com uma van na aldeia e carregam nossas crianças e jovens para suas igrejas. Isso nos deixa muito tristes! Tem algumas noites que não conseguimos dormir com essa preocupação. Porque antes não era assim! Antigamente, dois missionários vieram de outra terra, dos Estados Unidos, e moraram dentro da nossa aldeia. Mas naquele tempo os pajés eram muitos, o ritual era forte, e ainda tinha alguma mata e rio para os yãmĩy poderem caçar e pescar. Mas os missionários de hoje não respeitam mais os nossos pajés, nem as lideranças. Não querem saber se naquela hora que eles estão vindo o yãmĩy vai sair pra cantar e pegar comida na casa das suas mães. E quando as mães não estão em casa, quem vai alimentar os yãmĩy? Se as crianças não estão na aldeia, quem vai dançar com os yãmĩy? Eles querem que a gente esqueça os nossos yãmĩy, mas nós não vamos esquecer!
Os governantes não enxergam os povos indígenas e por isso nós estamos querendo mostrar a nossa cultura diferente, a cultura de cada povo diferente. Cada aldeia é uma, cada cultura é única, cada comida é feita de forma diferente. Hoje não temos mais mata grande onde nos esconder. Por isso precisamos vir para a cidade grande e mostrar a nossa força, o nosso yãmĩy, espiritual, para nos fortalecer. Porque precisamos do apoio dos não-indígenas para recuperarmos as nossas terras e as nossas matas, para vivermos em paz, sem missionário e sem violência contra nós… Nós gostamos de aprender com a sabedoria dos não-indígenas e ele também precisa aprender com a nossa. Por isso que nós viajamos muito e passamos várias semanas longe da aldeia. Vamos pra faculdade, estudamos lá e damos curso também para o não-indígenas. Fazemos filmes e os filmes nos carregam com eles por várias cidades, aqui no Brasil e em outras terras também. Nós mandamos os filmes para outras aldeias, e elas mandam seus filmes para nós: uma aldeia ajuda a outra com o cinema e, assim, passamos a conhecer a cultura de outros povos indígenas. E mostramos nossa arte no museu para os brancos aprenderem desde cedo que nós existimos, com os nossos yãmĩy.
Porque os brancos dizem assim: “os povos indígenas não trabalham!” Mas nós trabalhamos! Fazemos bolsas, arcos, máscaras, colares e pulseiras. Fazemos roças, rituais, alimentamos os nossos yãmĩy e os yãmĩy alimentam as nossas famílias também. Outros brancos não conhecem a nossa cultura, mas vão conhecer agora, vão sentir que nossos espíritos caminham juntos com as nossas coisas também. É muito trabalho, mas nós sentimos que os yãmĩyxop estão fortes, estão presentes conosco, nos fortalecendo. Por isso estamos mostrando o nosso trabalho, para as pessoas conhecerem muito bem como algumas das nossas coisas se transformam. Transformam em outra imagem, transformam em outra história, tudo se transforma… A nossa arte, algum bicho também vai transformar, a semente vai se transformar em árvore, e é assim que continuamos fazendo. As coisas transformam muito né? E hoje, isso ainda continua. Eu me transformei em cineasta. Yãy hã mĩy. Curador. Yãy hã mĩy. Transformar. É assim.